E para continuar o meu leque de entrevistas aos meus "outros significados" escolhi a minha colega de equipa, Nádia Anusca Franco D'Almeida, conhecida no futebol/futsal por Nuskinha.É um membro da "família" da ADC Gualtar e um exemplo vivo de que as pessoas não se medem aos palmos. Tem um carácter muito característico devido à sua inteligência e espírito crítico, desta forma luta sempre e naturalmente pelo bem-estar da equipa. É uma jogadora "nata" pois com a bola nos pés torna-se inconfundível. Coleccionadora de todas estas faculdades, fazem dela uma das jogadoras que mais admiro.
Nuskinha na primeira pessoa...
Mélissa: O teu jeito para a "redondinha" não é indiferente a ninguém. Como e quando descobriste que eras diferente?
Nuskinha: Desde que me lembro jogo futebol. A minha infância foi feita a jogar futebol/futsal porque a maioria dos meus amigos eram rapazes e foram eles que me incentivaram e ensinaram a jogar. Sempre joguei com rapazes e só aos 16 anos é que me iniciei como federada numa equipa de futebol 11 de Fafe, no CD Vinhós. Mas talvez se deva também a um factor genético... a minha Mãe também foi jogadora durante muitos anos e dizem que sou muito parecida com ela a jogar, era uma grande jogadora.
Mélissa: De chuteiras ou de sapatilhas, a bola faz parte da tua vida desde muito cedo. Podes dizer-nos qual foi o teu percurso até chegar à ADC Gualtar?
Nuskinha: É verdade, desde muito cedo que jogo, mas nem por isso o meu currículo é assim tão vasto quanto possa parecer. Joguei em muitos torneios de bairro, mas com 10 anos comecei a jogar em campeonatos do concelho de Fafe, com rapazes. Joguei 2 anos pela ACR Restauradores da Granja, onde me ensinaram muito do que sei hoje e mudei para os "Justiceiros", onde joguei mais 2 anos. Como a idade limite era 14 anos para participar nesses campeonatos, estive parada durante outros 2 anos, até que finalmente aceitei o convite da CD Vinhós, já com 16 anos. Aí joguei uns longos e agradáveis 5 anos, até que chegou a altura de mudar para o futsal, neste caso para a ADER Mogege onde joguei 1 época. A convite da equipa técnica e com um projecto bem aliciante, cheguei finalmente à ADC Gualtar.
Mélissa: Visto que já viveste essas 2 realidades, futebol e futsal, sabes certamente dizer-nos o que te fascina nos relvados e nos pavilhões...
Nuskinha: Sim, é verdade, vivi essas 2 realidades e posso desde já dizer que o futsal é muito mais competitivo e bonito de se jogar. Relvados esses foram poucos, visto que a maioria das equipas de futebol 11 não possui verbas nem ajudas para treinar e jogar em relvados, por isso os campos pelados foram mais a minha vida. É certo que joguei muitas vezes em relvados e adoro jogar futebol 11. É bastante diferente do futsal e o que me fascina nos pelados/relvados é a diferença que uma jogadora pode fazer num jogo, visto que na posição onde jogava tinha que ser eu a construir todo o jogo, o que é algo que eu adorava fazer. A visão de jogo que é necessário ter é uma das coisas mais bonitas no futebol 11.
Em relação ao futsal, só jogo como federada há 2 anos, mas posso dizer que as emoções estão mais à flor da pele. Há mais público a assistir, mais equipas, mais competitividade e a verdade é que se joga melhor futsal feminino em Portugal do que futebol 11. Adoro jogar em pavilhão, sempre gostei, e o que mais me fascina de facto é a capacidade táctica necessária que é preciso ter para o poder praticar da melhor maneira.
Mélissa: Com tanta qualidade que te é inerente, não admira que tenhas feito parte da formação das nossas selecções por vários anos. Gostaste da experiência que viveste a nível de selecções?
A Selecção Nacional Feminina é o objectivo de todas as atletas que praticam futebol 11 e futsal, mas a verdade é que nem todas conseguem dar o seu contributo. Este facto deve-se a várias razões, entre elas a falta de "olheiros" e "interessados" nessa mesma formação. Eu tive a sorte de, na altura certa, ter aparecido alguém para me ver jogar e que me chamou para um estágio. É claro que foi uma experiência fabulosa e que sem pensar 2 vezes repetia se me chamassem, mas a verdade é que nem sempre as coisas correram da melhor maneira. Nos 2 primeiros anos que fiz parte da Selecção Nacional, na altura do Prof. Nuno Cristóvão e Prof. Mónica Jorge, havia algo que me fazia sentir com força e garra para jogar fosse em que posição fosse. Mas sabia que ambos tinham conhecimento que a melhor opção para mim como jogadora era jogar a "número 10", independentemente da minha altura. Adorei essa fase e com a saida do Prof. Nuno Cristóvão muita coisa mudou. No meu último ano juntou-se ao projecto o Mister José Augusto e aí as coisas já não correram tão bem para mim. A maneira de jogar implementada não estava de acordo com o que tínhamos aprendido até então e a meu ver, muitas jogadoras foram prejudicadas por isso, mas o que é certo é que fomos a primeira Selecção Feminina portuguesa a passar uma 1.ª fase de apuramento para o Campeonato da Europa, onde já não estive presente. A partir de então a minha história na Selecção está num intervalo e espero que em breve possa voltar, porque como tu bem sabes, é um orgulho muito grnde representar o nosso país.
Mélissa: Falando de futsal... vou colocar-te uma questão que me suscita muita curiosidade porque me sinto triste em relação à realidade do futsal feminino no nosso país. Tu enquanto atleta, certamente sentes que o teu dom inato para a bola não é totalmente aproveitado, dado que os clubes em Portugal disponibilizam, em média, apenas 2 treinos por semana. Peço-te que comentes este facto e aproveites para nos dizer que nível gostarias que o futsal feminino atingisse. Nukinha: Hoje em dia, em alguns paises, o futebol/futsal feminino é profissionalizado, mas o mesmo não se passa em portugal. A verdade é que isso torna qualquer desporto mais apoiado e apreciado, mas o problema não é bem esse. Eu penso que em portugal a federação não aproveita os talentos das atletas feminias, ainda mais se forem jogadoras de futsal. O patamar ideal era a profissionalização, pois todas as atletas têm outra vida para além do futebol/futsal e por vezes têm de lutar contra tudo e todos para poderem fazer o que mais gostam. É uma verdade, o nosso talento é muito mal aproveitado pelos demais, pois é com muito esforço que apenas duas vezes por semana os clubes treinam para que no fim-de-semana consigam mostrar a quem assiste o seu melhor. Agora com o que temos, bastava um pouco mais de apoio e com a existência de uma Selecção Nacional feminina de futsal, talvez a evolução deste desporto em Portugal fosse grande, permitindo a aposta de patrocinadores nas equipas.
Mélissa: Voltando à nossa realidade e ao nosso campeonato... quando abraçaste o projecto da ADC Gualtar sabias que eu fazia parte dele e apesar de não me conheceres, já tinhas uma vaga ideia sobre mim. dado que já te falei sobre ti na apresentação da entrevista, descrevendo-te da forma como te vejo e admiro, penso que seria justo partilhares o que pensas sobre mim. Sem vergonha e com sinceridade...
Nuskinha: É verdade. Sabia que farias parte do projecto e sem dúvida que fiquei bastante agradada. Não te conhecia como pessoa, apenas como atleta e tenho a certeza que qualquer atleta gostaria de fazer parte de uma equipa onde tu também estivesses. Não posso esconder que tinha um pouco de receio pelo nosso relacionamento, pois do pouco que te conhecia fora do campo e do muito que me conheço, sabia que talvez pudessem existir incompatibilidades. A verdade é que isso não aconteceu e agora posso dizer que te admiro muito pelo que és fora do campo, pois estás sempre disposta e disponível para ajudar quem precisa e nunca falhas aos teus compromissos. És uma adulta com 19 anos, bastante independente e responsável. Dentro de campo acho que não há muito para dizer... és uma jogadora fantástica, com bastante potencial em todos os níveis e tens muita auto-confiança, o que é o teu maior estímulo. Um senão é o facto de andares sempre lesionada, o que na minha opinião talvez se deva ao facto de, dentro de campo, não conseguires descortinar a altura em que deves parar de fintar. Por vezes isso só te prejudica a nível físico e táctico, mas com todas as tuas qualidades lidas bem com essas situações.
Mélissa: Aproveitando algumas das tuas palavras e indo de encontro ao que foste dizendo, antes do campeonato começar muitos "rumores" surgiram à volta da nossa equipa. Muitos deles eram dirigidos ao facto de ambas fazermos parte desse projecto. Quebramos expectativas negativas e atingimos muitas positivas. Sentes e pensas o mesmo que eu?
Nuskinha: Sim, sim. Completamente. É verdade que esses rumores surgiram, uns com normalidade e outros para tentar enssombrar o projecto. Certamente que toda a gente pensou que seríamos incompatíveis dentro de campo, mas acho que a esta altura do campeonato já provamos aos demais que essa incompatibilidade só existe na cabeça de alguns, talvez daqueles que ainda não tiveram o prazer de ver a ADC Gualtar a praticar o bom futsal que quase sempre tem mostrado.
Mélissa: E tu és uma das grandes responsáveis por esse "bom futsal" e talvez essa seja uma das razões pelo facto de ouvirmos, durante os jogos, chamar pelo teu nome e muitas vezes pessoas desconhecidas, que se deslocam aos pavilhões para te ver jogar. Assim e para terminar, como forma de poderes homenegear todos que te admiram, dentro e fora de campo, pedia-te para deixares uma pequena mensagem a todos quantos sabem reconhecer um verdadeiro talento.
Nuskinha: Sinceramente e sem querer dizer que sou distraída e que não dou valor a quem assiste aos nossos jogos, são raras as vezes que me apercebo disso. para mim é muito difícil concentrar-me no jogo e na bancada ao mesmo tempo, quando jogo abstraio-me de tudo em meu redor. É claro que ouço o público, mas como um apoio e não como uma forma de evidenciar alguém. Adoro entrar num pavilhão e ver que está cheio para nos ver jogar, parece que me sinto mais confiante. E a todos os que nos apoiam, que nunca faltam a um jogo, que estão connosco nos bons e maus momentos e que são sinceros connosco quando devem ser, deixo um enorme obrigada. É um orgulho ter adeptos assim e ver que há pessoas, amigas e conhecidas, que arranjam tempo para nos ver jogar. Espero que façamos algo de maravilhoso, sendo ou não campeãs, mas que vos deixem orgulhosos. Obrigada por tudo!
